# Pinóquio não é uma história sobre mentir

> Pinóquio é muito mais do que uma história sobre mentir. Uma reflexão sobre crescer, errar, aprender com as escolhas e descobrir quem somos.

**Canonical:** https://www.orientaosteussonhos.pt/dicas-uteis/73-pinoquio-nao-e-uma-historia-sobre-mentir
**Language:** *
**Author:** Ana Simões
**Last updated:** 2026-09-28

E se tivermos compreendido mal a história de Pinóquio durante toda a vida? Por detrás do nariz que cresce quando mente existe uma reflexão muito mais profunda sobre escolhas, erros, atalhos e aprendizagem. Talvez crescer não seja aprender a fazer sempre tudo certo, mas descobrir, através da experiência, quem estamos continuamente a tornar-nos.

## *É uma história sobre crescer, errar e tornar-se quem somos.*

Há histórias que julgamos conhecer tão bem que deixamos de pensar sobre elas. O Pinóquio é uma delas. Quase todos crescemos com a mesma ideia: Pinóquio é o menino de madeira a quem o nariz cresce quando mente. Uma história infantil sobre a importância de dizer a verdade. Mas a história original de Carlo Collodi é muito mais do que isso. Pinóquio é, acima de tudo, uma história sobre crescer. Ao longo do seu percurso, o Pinóquio engana-se. Confia nas pessoas erradas. Faz escolhas impulsivas. Procura soluções fáceis. Tenta evitar o esforço e as dificuldades. E, vezes sem conta, descobre que os atalhos que pareciam aproximá-lo daquilo que queria, acabam por levá-lo para ainda mais longe. Até perceber uma coisa fundamental: não há atalhos para nos tornarmos quem queremos ser.**

## A estranha ideia de que não podemos falhar

Passamos uma parte considerável da vida a tentar não cometermos erros e a não nos enganarmos. Queremos tomar a decisão certa, escolher as pessoas certas, aproveitar as oportunidades certas, dizer a coisa certa no momento certo e fazer escolhas das quais não nos venhamos a arrepender. Como se uma vida bem vivida fosse uma sucessão de decisões acertadas. Mas não é. Há decisões que só percebemos que foram erradas depois de as tomarmos. Pessoas em quem confiámos e em quem não deveríamos ter confiado. Oportunidades que deixámos passar. Caminhos que seguimos durante demasiado tempo. Outros que abandonámos cedo demais. Há momentos em que falhamos. E há momentos em que, simplesmente, não sabíamos o que hoje sabemos. Talvez esta distinção seja importante. Porque é muito fácil olhar para trás com os olhos de hoje e exigir à pessoa que éramos há cinco, dez ou vinte anos que soubesse aquilo que só a experiência, entretanto nos ensinou.

## Tornarmo-nos “reais”

Há uma ideia particularmente bonita na história do Pinóquio: ele começa por ser uma marioneta e deseja tornar-se um menino de verdade. Mas não se torna real por desejar muito que isso aconteça. Também não se torna real quando finalmente aprende a fazer tudo bem. Torna-se real através daquilo que vive. Dos erros que comete, das consequências que enfrenta, das pessoas que encontra, das escolhas que faz, daquilo que perde e do que aprende. E talvez connosco não seja assim tão diferente! Hoje fala-se muito de autenticidade. De sermos nós próprios. De encontrarmos a nossa essência. Mas talvez não exista, algures dentro de nós, uma versão completamente acabada de quem somos à espera de ser descoberta. Talvez essa pessoa vá sendo construída.

## O desconforto também faz parte

O problema é que crescer desta forma é desconfortável. Ninguém gosta de perceber que se enganou (nem quer muito que isso aconteça). Muito menos admitir que falhou, que julgou mal uma situação, que confiou em quem não devia ou que insistiu num caminho que afinal não era o seu. O erro mexe com a imagem que temos de nós próprios e, por isso, procuramos evitá-lo. E, às vezes, procuramos também atalhos. Queremos a certeza antes de decidir. O resultado sem o risco. A mudança sem a insegurança. A aprendizagem sem a possibilidade de falhar. Só que algumas coisas não podem ser aprendidas antecipadamente porque há coisas que só a experiência ensina.

## E se o erro não for o contrário do caminho?

Talvez alguns dos nossos maiores erros tenham contribuído mais para aquilo que somos hoje do que muitas das decisões que correram exatamente como planeámos. Não porque devamos romantizar o sofrimento ou procurar o fracasso, mas porque aquilo que fazemos depois de uma experiência difícil também nos constrói. Podemos repetir, podemos ignorar ou podemos integrar o que aconteceu e seguir em frente um pouco diferentes. É aí que o erro se transforma em experiência e a experiência em aprendizagem.

## Não somos uma versão final

Talvez uma das ideias mais libertadoras da vida adulta seja perceber que nunca chegamos verdadeiramente a uma versão definitiva de nós próprios. Continuamos a mudar. Aos 20, 40, 60… Mudamos de ideias. De prioridades. De relações. De sonhos. Descobrimos capacidades que desconhecíamos e fragilidades que julgávamos já ter ultrapassado. E continuamos a aprender. Não apesar de ainda nos enganarmos, mas, muitas vezes, precisamente, porque ainda nos enganamos. O Pinóquio só se torna real quando deixa de procurar atalhos. Talvez essa seja a parte da história de que menos nos lembramos. Porque crescer não é chegar rapidamente à versão certa de nós próprios. É aceitar fazer o caminho! Com escolhas certas e erradas. Com avanços e recuos. Com certezas que deixam de o ser. Com experiências que nunca escolheríamos repetir, mas que passaram a fazer parte de quem somos. Talvez tornar-se real seja exatamente isso. Não nos tornamos quem somos evitando os erros. Tornamo-nos quem somos através deles.

![crescer não significa evitar os erros, mas aprender com eles e permitir que as experiências contribuam para aquilo em que nos tornamos.](https://www.orientaosteussonhos.pt/images/artigos/pinoquio-historia-mentir-516.webp)
